Quando o gato sai de casa o rato assume o comando. Não existe provérbio mais certeiro! Basta apurar os sentidos e emprestar os ouvidos para ouvir alguma coisa correlata. Algo deve estar errado! Das duas uma: os homens de bem não se envolvem em política, ou essa atividade é uma bagunça generalizada. Há quem diga que as duas coisas acontecem... Sendo assim, caro leitor, aperte o sinto, pague para não entrar e, dependendo da sua religião, ore ou reze para sair!
Pois bem! Conta a estória que um dia uma raposa apareceu no quintal de uma fazenda, e como não havia por ali cão que ladrasse, ela foi ficando, e permaneceu. E de repente quis tornar-se íntima dos bichos de penas que freqüentavam o quintal. Com esse intuito, aprendeu a piar, a fazer corococó, e a cortejar o galo. Chegou ao extremo de montar um ninho no canto da cerca, e não poucas vezes se aninhou por lá; e os outros animais a viram, e teceram comentários sobre o esforço tremendo que fez a raposa, na tentativa de botar um ovo.
Não tardou muito, um dos daqueles frangotes mais comunicativos do terreiro, considerando-se um exímio formador de opinião, apresentou uma brilhante idéia aos comuns da sua espécie. Disse aos seus convivas do quanto gostava daquele quintal e amava aquele terreiro. Ressaltou a sua luta para que o monturo em que ciscavam fosse o melhor de toda aquela redondeza.
A maioria não entendia nada do que saía daquele bico eloqüente, mas aplaudia assim mesmo. E o “Rui Barbosa” de penas, mais entusiasmado do que nunca, prosseguia afirmando que há crises afundando o Velho Mundo, e que até a Grécia, o berço da democracia, suspira a ânsia da morte, devido a situação em que se encontra. Diante disso, não via ninguém melhor para conduzir o destino deles do que a mais nova companheira, a raposa.
E o bichinho recém-chegado ao quintal, que a ainda não havia aprendido a comer ração nem grão de milho, mas conhecendo sua natureza de raposa, tomou a palavra do frango, e disse que era apaixonada pelos habitantes daquele galinheiro (a raposa não mentiu, mas seus ouvintes não entenderam a mensagem subliminar de suas palavras). Acrescentou que era tanto o seu amor por seus irmãos bípedes bicudos, que estava aprendendo a andar em duas patas e a trocar seu pelos por plumagem.
Alguns protestaram, a maioria não disse bulhufas. E entre os que abriram o bico, resolveu-se criar um movimento para conduzir a raposa a chefe do bando.
... Ah, havia também um olho observador que resolveu contar essa história... O final ainda não foi escrito.